Aprendemos, na marra, a cada eleição da democracia burguesa, a conviver com os expedientes mais abjetos.
O jogo de cena dos candidatos vai se moldando ao painel montado pela mídia.
São sócios na tarefa de demonstrar que estão fazendo alguma coisa pelo povo.
Tudo é fake. Tudo é nefasto. Fantasias a serviço da fraude e da manipulação.
É triste perceber que tudo está a venda, o talento de tantos comunicadores na linha de montagem da campanha, na esteira com caixas lotadas de mentiras, rotuladas com verdades coloridas.
O povo já conhece este jogo e não gosta mais dele.
Está convencido que vai sempre perder no final. Como nas máquinas caças-níquel ou no golpe da tampinha.
Pensarão menos na urna. Isso já não fará nenhuma diferença a eles.
Como o Foguinho (ou Foguetinho, ou Rojãozinho) da novela, o eleitor brasileiro sabe que vai tomar na tarraqueta e, então, tentar levar uma vantagem pessoal em uma coisa que sempre acaba em desvantagem coletiva.
E quando vamos culpá-los, responsabilizá-los pela cumplicidade ou pela apatia, por aprovar presidentes estúpidos como este, comandante de um governo corrupto e socialmente inoperante (só é ótimo como doador de esmola e não gostamos da idéia de esmola), lembramos destes números tão tristes da educação pública, das escolas decrépitas, da repetência endêmica (apenas 100 mil não bombam em ano letivo algum num universo de dezenas de milhões), da irrisória carga horária semanal das crianças, do analfabetismo funcional dos adolescentes pardos e negros, da baixíssima circulação de livros, jornais, revistas...
E naquele momento em que vamos xingar o povo, o “povo burro”, que vota em ladrão, que vota em tratante, que vota em trambiqueiro, que vota em gangsters, eis que nossa culpa cristã nos cala.
Lembramos da nossa educação, dos números terríveis como aquele que conta que são apenas 21 milhões de eleitores com ensino médio completo contra 105 milhões de pessoas que não têm escolaridade suficiente para imaginar o que é uma política pública e qual é o papel do cidadão.
O povo não sabe de nada e a culpa é de quem pede votos a ele.
Sempre os mesmos, assessorados pelos mesmos marketeiros, pelos mesmos jornalistas que querem trocar o carro ou pagar a dívida do cartão de crédito.
Esta usina de injustiça, mais forte que todas as propaladas reformas emperradas, só será desativada com investimentos maciços em educação.
Investimentos maciços.
Tão maciços, mas tão maciços, que provocaria grande dificuldade nos outros setores do poder público.
Melhorar a qualificação dos professores, melhorar seus salários, construir e reformar escolas, dotá-las de estrutura para a prática desportiva e para saúde preventiva, instituir carga horária integral em todos os níveis, servir alimentação de qualidade, com transporte e material escolar gratuitos.
Acesso a computadores, internet, vídeos educativos, palestras.
É por isso que é preciso ter coragem para mudar o Brasil: porque é preciso ver com clareza qual é nossa maior chaga - a mãe de todas as outras - e enfrentá-la com decisão e projeto, em detrimento dos demais tentáculos da máquina estatal.
Ter coragem para fazer o impossível e nos livrar do maior pesadelo.
O possível sempre foi feito e não mais nos interessa.
Gostaria que a transformação da educação pública fosse o tema central da campanha porque esta é a questão central do Brasil.
Publicado em 01 de agosto de 2006 às 20:08 por playmobil
Concordo com teu ponto de vista sobre a educação, mas digo (licença utópica para imaginar um governo que abraçou a causa da educação brasileira, ou seja, é ético), que é possível sim fazer isso sem estrangular os outros setores. Difícil é fazer o ovo nascer antes da galinha. Estamos, eticamente, muito, muito doentes.