passageiras agonias

Obrigado, compatriotas!



Eu queria neste domingo de inverno,

céu nebuloso vazado por um sol cálido e maternal, porque são maternais os raios que não desamparam nem estando tão longe,
céu de estúdio me enche de paz e esperança,

fazer oração pagã aos homens com h, h de heróis, imune às dores da carne e do espírito, fortaleza de vidas a nos poupar de enxergar o horror defumado, a nos poupar de inspirar os odores miseravelmente humanos, como é humana toda aquela fragilidade, como apreensivo é o ar grosso de cinza.

Não se importam, os bombeiros de São Paulo, com escombros deslizantes e silenciosos, com a escuridão que não interage.

Tudo isso nos aniquilaria moralmente, sufocaríamos com tanta tristeza.

Fazendo o que ninguém gostaria de fazer, eles me arrancam um obrigado por segundo.

Quando observo o trabalho formiguinha no âmago da ferida que sangrou jorrando nos confins da imensa cidade, eu peço à todas energias positivas que trafegam pelo mundo para que ajudem à fazer justiça, para que eles sejam recompensados à altura.

Rogo a equipe de roteiristas do universo para que escreva capítulos especiais de grandeza e realização a esses nobres homens nascidos no Brasil mas que ainda honram pais e filhos.

Quem me dera se estes corações determinados fossem capazes de revolver todo o escombro moral que aprisiona os de bem, capazes de assoprar as cinzas que estão embotando as visões generosas e solidárias da Nação.

Neste domingo, eu gostaria de decretar o esquecimento dos crápulas, de remendar essa bandeira verde-e-amarela roída pelos ratos e tão sem sentido para os milhões de famintos de pão e amparo,

gostaria de ignorar a multidão cabisbaixa que olha em tom grave para o que vem pela frente.

Neste domingo de céu nebuloso mas de boa brisa, eu rogo por estes brasileiros de São Paulo.

Dão aula de decência às crianças, acalmam os velhos envergonhados com a herança violenta e inescrupulosa da pós-modernidade.

Sacos plásticos, lanternas, pá escavadeira, maca, picareta, tesourão, corda, mangueira.

Os apetrechos dos bombeiros de São Paulo são menos importantes que o kit formado por coragem, fibra e resistência.

Eu tenho as mãos para cumprimentá-los.

E é bonito guardar este orgulho de chamá-los de compatriotas!

Publicado em 22 de julho de 2007 às 15:32 por playmobil

Comentários

    • eu também tenho as mãos pra cumprimentá-los - eles e você. belo texto, querido, como sempre.
      (você também nos honra)
      beijo
    • por janaina
    • 22.Jul.2007 às 16:27 - Permalink - Reportar
    janaina
    • Bombeiros: bombeiros!
    • por tremendão, emocionado com o texto
    • 22.Jul.2007 às 17:12 - Permalink - Reportar
    tremendão, emocionado com o texto
    • Não é o primeiro - e nem será o último - texto que leio em homenagem a nossos nobres bombeiros (mesmo porque, infelizmente, tragédias continuarão a ocorrer exigindo as habituais entrega e competência desses profissionais valorosos), mas Playmobill conseguiu nos emocionar mais uma vez.
      O cara é o grande cronista do coletivo Tipos. É o craque da prosa como a Audrey é na prosa poética. Além dos dois, gosto também da Marina C. Dias, com seu encantador diário de adolescente. Mas como sou leitor recente desse coletivo, ainda não acompanho todos os bróguis aqui reunidos. De repente, há outros igualmente interessantes que ainda não descobri. Vale dar uma vasculhada.
    • por urso gripado
    • 22.Jul.2007 às 23:15 - Permalink - Reportar
    urso gripado
  1. salome
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