Meu pai e o primogênito escolheram o Santos.
Ser corinthiano foi meu primeiro ato subversivo.
A Zelinha minha irmã naturalizada paulistana também foi subversiva no Natal de 77. Cúmplice minha irmã-madrinha ao me presentear com a peça de vestuário mais importante da minha vida.
Seguramente, ela não resistiu. A maior cidade do País - fustigada pelo Pacote de Abril e pela invasão covarde da PUC - arrancou as mordaças com bandeiras e gritos enlouquecidos naquela primavera. Era só futebol mas é como se fosse mais.
Osmar Santos fazia misérias na latinha, abastecendo a turba na Paulista, nos plantões das fábricas, nas celas ou nas vendinhas das favelas.
Quem resistiria compartilhar aquele sorriso da massa com um irmãozinho?
E foi assim que, diz a lenda, numa grande arara armada por um camelô na Sé, a Zelinha comprou uma alma para mim.
Aos três anos, ninguém gosta de ganhar roupa porque só adulto chato defende presentes pragmáticos para uma criança. Mas eis uma bela exceção. Gostei do desenho do timão e, diz a lenda familiar, que eu me recusei por dias a tirar o mantinho. Nunca mais troquei de roupa.
Dizem que isto é mentira e que a tal camisetinha foi devorada pelo tempo.
Mas acho que não, acho que agora a pecinha virou um porta-coração. Os dois são invisíveis mas estão lá, juntinhos e vitais. Não acho não, tenho certeza.
Quando o Betão deixou o título dos
bambi sem graça - sinceramente qual é a graça de ganhar uma taça sem derrotar o Todo Poderoso? - vivi o júbilo dos grandes momentos e me lembrei da camisetinha, sempre a evitar que a bomba de sangue seja arremessada ao nada pela boca.
E lá vai o Timão, o ente superior com Betão ou Basílio, pulverizando tabus absurdos e apresentando a soma de todas as cores e a ausência absoluta delas como a dicotomia do orgulho.
E eu nem sei o que é viver sem ele.
A natureza também joga a favor e eu não me lembro de nenhum daqueles mil e cento e poucos dias em que eu não era corinthiano.
abraço, brother!