O estrangeiro estava preparado.
Achava que estava preparado.
Iria.
Passeio no rincão que sugava suas raízes.
E o estrangeiro foi trocando passos imaginando que o que haveria de vir haveria de lhe acalmar.
Porque o estrangeiro, às vezes, se esquecia de que era estrangeiro.
Achava que tudo também era seu.
E saber que tudo era seu era o anestésico para todas as suas amputações.
E seus olhos estrangeiros sorriam.
Nos primeiros passos, abstraiu.
Como sempre, abstraiu.
Deus lhe deu uma janela e o estrangeiro abstraiu.
Viu aquários, quebrou os aquários. Porque o estrangeiro sabia que tudo era seu.
E se tudo era seu, tudo era livre.
Viu gaiolas com canarinhos pela janela de Deus.
E deu fuga aos bichinhos.
E os arranjos de rosa voltaram ao jardim e o garoto topou brincar com o avô e dos orfanatos e hospitais ouviam-se gargalhadas.
E de cinta-liga uma guria eterna lhe explicava como ter a virtude da paciência recompensada.
O estrangeiro trocava passos lentamente enquanto a janela despejava imagens coloridas numa projeção febril.
Banho de chuva, raspadinha na praia, mina vertendo e a brisa da montanha-corcova, e no salão os passos de dança tornavam todos os futuros promissores.
O estrangeiro ficou escravo da janela.
E ele achou que finalmente havia encontrado a terra natal.
Não era mais estrangeiro.
Parou de caminhar.
Sentou na grama. Deitou na grama. As vozes falavam sua língua. Aromas e sabores familiares.
E então seus olhos se fecharam.
A tempestade chegou.
A tempestade chegou.
E nada mais era abstrato.
O estrangeiro voltou a ser estrangeiro.
E correu. E nada mais o acalmava. Nada mais era seu.
De novo, a sina.
O estrangeiro não entendia o seu redor.
Estava, contudo, preparado.
Era áspero o seu rincão.
Sabia desde que havia descoberto a razão.
Áspero, o rincão.
Doce a janela.
Interminável o rincão.
Fugaz a janela.
Lição tão velha!
E o estrangeiro trocou os passos pela resignação.
Deitou na grama sem janela e sem Deus.
E engoliu a tempestade.
Encheu os olhos de cisco, se sujou na enxurrada barrenta.
Pois é.
Será sempre estrangeiro.
Sempre.
Porque o rincão que sugou suas raízes nunca será seu.
E ele nunca será livre.
Não é mais que um intruso tanto quando o mundo sangra como quando o mundo goza.
Apenas um estrangeiro que caminha sem saber onde é sua casa.
Sem saber se ela, de fato, existe.
Publicado em 17 de dezembro de 2007 às 18:48 por playmobil
se me sinto estrangeira dentro de mim mesma?
Se um rio de lágrimas insistem em sair dos meus olhos sem eu ter o mínimo controle?
Se o mundo parece se fechar cada vez mais, me obrigando a fugir para bem longe de de mim mesma?
Ando meio deprê não liga não!
beijão