Ponteiro pequeno gira e eu sou menor que o desespero.
Um segundo, outro, mais outro, e... outro...
Uma mancha no vidro sobre o mostrador me incomoda.
O ponteiro médio avança sob ela.
A mancha não existe para ponteiros, os implacáveis incansáveis.
Para mim, a mancha lamentavelmente existe. Marco de obsessão.
O tal ponteirinho com seu tic-tac – o barulho do tempo – saltita para vaticinar que o fim está mais próximo, avisa que o big bang está cada vez mais distante. E os outros dois irmãos maiores o acompanham em ritmo indolente, embora firme.
A mancha ali tão inerte me rouba a atenção. Só vejo o dinamismo dos ponteiros quando eles passam por ela.
E quando mancha e ponteiros se cruzam, um pedacinho meu é sepultado sem choro.
O relógio de parede me hipnotizou e a sua mágica é capaz de me aliviar. Joga a engenhoca na minha melhor história, onde o tempo não é rei, onde o tempo é servo.
Ao menos sentisse uma nota do seu cheiro, alcançasse sua alma em janelas castanhas ou em sorrisos levemente constrangidos; ao menos assim eu esqueceria que mancha e ponteiros se encontram e não param para se cumprimentar.
Porque todo este amor me garante que você não permitiria. Não permitiria que eu olhasse fixamente para a parede.
Avançaríamos feito os ponteiros.
Rumo ao fim, é verdade, mas também rumo a nós mesmos.
E a textura macia da sua voz abafaria o tic tac, nossos beijos sepultariam nossos pedacinhos tão juntinhos que eu já nem me importaria.

Não me importaria com os ponteiros a cruzar a mancha porque você seria maior que todos os segundos e, eu, seria maior que todo o meu desespero.