Archives
This is the archive for March 2008
Friday, March 14, 2008
Dom Diego

O Diego Prazeres é um dos caras mais corretos que já conheci. Seu PIB ético é maior que o da soma de todos os vereadores que passaram pela Câmara de Londrina nos últimos 20 anos.
É também o maior torcedor do LEC - pelo menos entre os que eu conheço. Paixão que vale por uma arquibancada lotada do VGD.
O rapaz tem idéias avançadas, é dotado de visão global no assunto, conhece a nova ordem do futebol, armazena conhecimentos sólidos sobre a história deste portentoso clube azul, que já acabou uma temporada na quarta colocação no então certame mais difícil do mundo.
Outros predicados habitam Prazeres: ama com ardor a terra que chama de sua, vibra quando enxerga o vermelho em seus pés.
Pelo Tubarão, perde humor até em Quizomba, festa de samba transpirante com cabrochas uelinas irresistíveis.
Não consigo imaginar o mal que o silêncio vindo lá do Café provoca nele. É só um silêncio, duro feito o cimento das arquibancadas. Mas até o silêncio murmura com tantas feridas.
E eu fico aqui com meus planos.
Ganhar sozinho na Megasena acumulada, colocar uns milhões no LEC, nomear ex-craques como diretores e colocar o Diego de manager.
Não sei se é mais difícil eu ganhar a bolada ou ele aceitar o convite.
As soluções para o Londrina parecem mais um delírio.
%%%
Enquanto não ganhar na loteria e o Diego não desfilar sua competência sob as arquibancadas do VGD, eu acredito que chegou a hora da mais dura decisão.
Licenciar o futebol profissional, buscar as soluções de médio prazo sem a concorrência das demandas imediatas que sempre consumiram todas as energias do Tubarão. Parar, planejar, implementar soluções realistas mas modernas, criativas. Se isso não passar de teoria, então fecha, tranca a porta, vivamos de fotos e vídeos. Curtamos a eternidade de uma paixão.
Não faz sentido manter a bola rolando apenas em nome da tradição e da honra. Os últimos resultados estupram as duas coisas. Mandar todos ao limbo, a começar pelo presidente e diretores (passando por comissão e jogadores), é imprescindível.
Chegou a hora da maturidade e dos torcedores de bom senso entenderem que, com a continuidade inútil, apenas alimenta-se uma fraude que tem custado caro.
Thursday, March 06, 2008
O Atlético que se foda!

Prestigiar o Tubarão é quase sempre alguma coisa classificável entre o masoquismo e a obstinação.
Na verdade, torcer para um time assim, hoje tão pequenino, é como acreditar em uma utopia.
É correr o doce risco de ser absolutamente surpreendido por algo grande e bonito. É isso que me leva ao estádio. Nada mais que isso: a possibilidade de viver a glória da vitória improvável.
Mas o LEC não é de mentirinha, não agüenta o peso da fantasia.
Existe. E tudo o que existe, existe para decepcionar os portadores da esperança patológica.
E a gente vai levando, achando que a noite de decepção pode, quem sabe um dia, não se repetir.
Pois ontem foi uma noite normal e o Coxa deu um vareio e o vexatório onze alviceleste parecia mais uma vez subalimentado.
O que irrita mesmo um londrinense de coração - protótipo em geral altivo e acostumado a estar por cima da carne seca em muitos rankings - são os flagrantes de inferioridade e sua conseqüente subserviência.
Não é tolerável ver tantas camisas do Atlético (um clube modesto no cenário nacional, pouco respeitado no Eixo RJ-SP) no Estádio do Café. Tampouco, dá para suportar aquela infame versãozinha do detestável Pink Floyd sendo entoada pela Falange Azul.
Parecem uns bobocas cantando o que a gangue maior ordena.
Muito triste esta parceria Falange Azul e Fanáticos.
Nós odiamos curitibanos, não faz nenhum sentido se aliar a algum grupo da capital para forjar uma identidade.
Historicamente, somos rivais do Atlético, do Coritiba, e este é um pressuposto sagrado. Gostamos de ganhar dos times da capital, seja qual for. É a graça do Estadual.
A rivalidade nos faz bem, nos nutre para continuar existindo como clube e torcida.
Sem essa de torcidas irmãs.
O Atlético que se foda!
Monday, March 03, 2008
Rubem Braga
Fico imaginando o privilégio de alguém ler o texto abaixo ainda fresquinho, com o sol batendo no jornal naquela manhã dos anos dourados.

A moça
Líamos juntos um poema de Vinicius de Moraes. Esbarraste na palavra "báratro" e pronunciaste "barátro", perguntando: "o que é?" Eu corrigi tua pronúncia, mas não soube explicar o sentido exato: "é alguma coisa como oceano ou labirinto...Vamos ver no dicionário".
Era abismo, precipício, inferno. E rimos muito.
Depois eu te ensinei a teoria de dormir na rede, e te emprestei a palavra "ruivas" para ficar no teu poema no lugar de "fulvas". (Tratava-se de formigas).
Então eu te levei ao Arpoador e subimos até o alto. E te ofereci num gesto largo todo o oceano suas ilhas e todo o céu com seus ventos; porém, estavas triste; digna e triste como olvidada princesa belga.
E me disseste: "sou o anjo duvidoso". E eu disse: "que és anjo não tenho dúvida alguma, está na cara; mas duvidoso, talvez".
Bebias muita água; e trincavam nos dentes a pastilha da felicidade, invenção americana. Eu recusei: "não; é verdade que estou meio triste, mas não tem importância, é uma tristezinha maneira; vou tocando assim mesmo".
E fomos tocando pela tarde e pela noite, de um lado e outro, como se estivéssemos procurando uma pessoa amiga, uma pessoa que procurávamos há tanto tempo que já havíamos esquecido quem era mesmo. E não tinha importância. De repente ficaste mais amiga e me contaste coisas amargas. Eu mirei tua boca, teus olhos e tua testa com um profundo respeito.
Rio, junho, 1956
Ai de ti, Copacabana (Rubem Braga)

A moça
Líamos juntos um poema de Vinicius de Moraes. Esbarraste na palavra "báratro" e pronunciaste "barátro", perguntando: "o que é?" Eu corrigi tua pronúncia, mas não soube explicar o sentido exato: "é alguma coisa como oceano ou labirinto...Vamos ver no dicionário".
Era abismo, precipício, inferno. E rimos muito.
Depois eu te ensinei a teoria de dormir na rede, e te emprestei a palavra "ruivas" para ficar no teu poema no lugar de "fulvas". (Tratava-se de formigas).
Então eu te levei ao Arpoador e subimos até o alto. E te ofereci num gesto largo todo o oceano suas ilhas e todo o céu com seus ventos; porém, estavas triste; digna e triste como olvidada princesa belga.
E me disseste: "sou o anjo duvidoso". E eu disse: "que és anjo não tenho dúvida alguma, está na cara; mas duvidoso, talvez".
Bebias muita água; e trincavam nos dentes a pastilha da felicidade, invenção americana. Eu recusei: "não; é verdade que estou meio triste, mas não tem importância, é uma tristezinha maneira; vou tocando assim mesmo".
E fomos tocando pela tarde e pela noite, de um lado e outro, como se estivéssemos procurando uma pessoa amiga, uma pessoa que procurávamos há tanto tempo que já havíamos esquecido quem era mesmo. E não tinha importância. De repente ficaste mais amiga e me contaste coisas amargas. Eu mirei tua boca, teus olhos e tua testa com um profundo respeito.
Rio, junho, 1956
Ai de ti, Copacabana (Rubem Braga)