A sábia
Entre as dores do Caso Isabella, da dengue letal, do amontoado de corpos na Coréia carioca, dos números econômicos brilhantes do Brasil Grande de Novo, entre clips com garotas de panturrilhas tatuadas, na montanha de informação que despejam sobre mim e que eu bovinamente consumo com gula desesperada, entre camisas roxas, ingrids agonizantes, entre keanes e adeles que não enjoam nunca e cujos cantos introjetam enzimas que não me deixam morrer, entre todos os olhares indiferentes à minha volta, entre obamas, dilmas e cristinas, eu ganhei um brilho nos olhos, ganhei uma lição, uma sócia no mundo.
E foi na página do mesmo jornal, da mesma vitrine tétrica da nossa era.
***
O Estado de S.Paulo, a melhor publicação diária em português, no Caderno 2 (produzido, aliás, por um time dos sonhos do jornalismo), deu meia página à estréia de O Caminho para Meca, peça protagonizada por Cleyde Yaconis, glória da arte dramática. Material soberbo de Beth Néspoli.

E lá, na página cinco da edição de hoje, há algo de muito especial.
Uma entrevista de alguém que merece falar e que merece toda a reverência. A gente nunca mais vai esquecer.
São desta senhora de 84 anos, as sábias palavras de quem soube envelhecer com a dignidade dos felizes e com o discernimento de uma grande artista.
“O que me motiva a cada trabalho é, principalmente, o que eu posso dizer e doar aos outros: a chance de conhecer um bom texto. Claro que se pode lê-lo, mas não é a mesma coisa. O teatro só acontece quando sai da palavra e se transforma em gente. Dar vida a personagens é um dom e eu não posso me omitir de exercitá-lo.”
“Eu acredito que todos nós estamos ligados por uma energia cósmica. Acho que todos nós temos obrigação de cuidar e manter a energia que liga os átomos, que liga as moléculas, que nos liga a todos. Acredito piamente que sou uma peça num todo e que se eu falhar, vou desequilibrar a energia que liga todo o universo. Temos um compromisso com o mundo que vivemos, o de ousar defender e divulgar as idéias nas quais acreditamos.”
“Eu odeio a palavra adrenalina. Tenho arrepios ao ver crianças de joelheira e capacete. Não entendo porque uma criança precisa brincar arriscando o dom precioso da vida. Sinto falta de uma educação familiar. Sinto falta de permanência nos relacionamentos. O mundo está veloz e superficial. (...) Sou uma mulher feliz porque andei a pé pelas ruas da cidade,de madrugada na saída dos ensaios, peguei bonde, vivi um tempo em se fruía o tempo e se valorizava o dom da vida.”
E foi na página do mesmo jornal, da mesma vitrine tétrica da nossa era.
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O Estado de S.Paulo, a melhor publicação diária em português, no Caderno 2 (produzido, aliás, por um time dos sonhos do jornalismo), deu meia página à estréia de O Caminho para Meca, peça protagonizada por Cleyde Yaconis, glória da arte dramática. Material soberbo de Beth Néspoli.

E lá, na página cinco da edição de hoje, há algo de muito especial.
Uma entrevista de alguém que merece falar e que merece toda a reverência. A gente nunca mais vai esquecer.
São desta senhora de 84 anos, as sábias palavras de quem soube envelhecer com a dignidade dos felizes e com o discernimento de uma grande artista.
“O que me motiva a cada trabalho é, principalmente, o que eu posso dizer e doar aos outros: a chance de conhecer um bom texto. Claro que se pode lê-lo, mas não é a mesma coisa. O teatro só acontece quando sai da palavra e se transforma em gente. Dar vida a personagens é um dom e eu não posso me omitir de exercitá-lo.”
“Eu acredito que todos nós estamos ligados por uma energia cósmica. Acho que todos nós temos obrigação de cuidar e manter a energia que liga os átomos, que liga as moléculas, que nos liga a todos. Acredito piamente que sou uma peça num todo e que se eu falhar, vou desequilibrar a energia que liga todo o universo. Temos um compromisso com o mundo que vivemos, o de ousar defender e divulgar as idéias nas quais acreditamos.”
“Eu odeio a palavra adrenalina. Tenho arrepios ao ver crianças de joelheira e capacete. Não entendo porque uma criança precisa brincar arriscando o dom precioso da vida. Sinto falta de uma educação familiar. Sinto falta de permanência nos relacionamentos. O mundo está veloz e superficial. (...) Sou uma mulher feliz porque andei a pé pelas ruas da cidade,de madrugada na saída dos ensaios, peguei bonde, vivi um tempo em se fruía o tempo e se valorizava o dom da vida.”
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