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This is the archive for July 2008

Cultura popular


Jessier Quirino, paraibano de Campina Grande, já conhecido no Nordeste, merece ser conferido tanto quanto poeta como quanto comediante. É espetacular!

Eis um grande artista da cultura popular, expoente contemporâneo
da adorável poesia chamada matuta.

Paisagem de interior


Jessier Quirino


Matuto no mêi da pista
menino chorando nu
rolo de fumo e beiju
colchão de palha listrado
um par de bêbo agarrado
preto véio rezador
jumento jipe e trator
lençol voando estendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Três moleque fedorento
morcegando um caminhão
chapéu de couro e gibão
bodega com surtimento
poeira no pé de vento
tabulêro de cocada
banguela dando risada
das prosa do cantador
buchuda sentindo dor
com o filho quase parido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Bêbo lascando a canela
escorregando na fruta
num batente, uma matuta
areando uma panela
cachorro numa cadela
se livrando das pedrada
ciscador corda e enxada
na mão do agricultor
no jardim, um beija-flor
num pé de planta florido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Mastruz e erva-cidreira
debaixo dum jatobá
menino querendo olhar
as calça da lavadeira
um chiado de porteira
um fole de oito baixo
pitomba boa no cacho
um canário cantador
caminhão de eleitor
com os voto tudo vendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Um motorista cangueiro
um jipe chêi de batata
um balai de alpercata
porca gorda no chiqueiro
um camelô trambiqueiro
avelós e lagartixa
bode véio de barbicha
bisaco de caçador
um vaqueiro aboiador
bodegueiro adormecido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Meninas na cirandinha
um pula corda e um toca
varredeira na fofoca
uma saca de farinha
cacarejo de galinha
novena no mês de maio
vira-lata e papagaio
carroça de amolador
fachada de toda cor
um bruguelim desnutrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Uma jumenta viçando
jumento correndo atrás
um candeeiro de gás
véi na cadeira bufando
radio de pilha tocando
um choriço, um manguzá
um galho de trapiá
carregado de fulô
fogareiro abanador
um matador destemido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Um soldador de panela
debaixo da gameleira
sovaqueira, balinheira
uma maleta amarela
rapariga na janela
casa de taipa e latada
nuvilha dando mijada
na calçada do doutor
toalha no aquarador
um terreiro bem varrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Um forró de pé de serra
fogueira milho e balão
um tum-tum-tum de pilão
um cabritinho que berra
uma manteiga da terra
zoada no mêi da feira
facada na gafieira
matuto respeitador
padre, prefeito e doutor
os home mais entendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.



Tapete vermelho para entrar no meu coração

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Merecia mais.

Tanto tempo.

Imaginação é como uma ponte para que tudo não fique pelo caminho.

Merecia mais.

Era por mil, nas minhas contas, a multiplicação ideal.

Tanto tempo.

O agora é só sinopse.

A lauda que eu guardei para contar nossa história tem linhas demais.

Não queria mentir, então não há palavra.

Sobre você, só tenho o briefing.

Merecia mais.

Diálogos brilhantes não são da vida.

São do delírio.

Cansei do delírio.

Das palavras de papel.

Queria o som das letras saindo da sua garganta.

Ainda que mal construído pela realidade, mas com a firmeza da verdade.

Tanto tempo.

E descobri a injustiça da brevidade.

Esperar por tão pouco.

Merecia mais.

É júbilo, então que não seja tão escuro, tão entorpecido, tão escanteado, tão fortuito, tão incompleto.

Seja meio e não um misto sem jeito de começo com fim.

Tanto tempo.

Merecia mais.

Tem tapete estendido.

E você não passa.

Tem um inverno lá fora.

Mas o céu está azul, profundamente azul.

E eu quero te contar minha história. E ouvir a sua. E propor que façamos delas uma coisa só.

Não mereceria mais e o tempo... o tempo seria apenas o tempo da maturação. Nem seria tanto tempo assim.